Guerra entre Irã, Israel e EUA já encarece fertilizantes, metais e até açúcar no mundo

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Guerra entre Irã, Israel e EUA já encarece fertilizantes, metais e até açúcar no mundo
Fumaça sobe sobre a área de Dahieh, em Beirute, no Líbano, após forças israelenses realizarem uma série de ataques aéreos contra o distrito em 11 de março de 2026 (Getty/Getty Images)

A escalada militar envolvendo Irã, Israel e os Estados Unidos já começa a provocar efeitos que vão muito além do petróleo. A guerra no Oriente Médio está interrompendo cadeias globais de produção e transporte e elevando os preços de uma série de produtos essenciais para a economia mundial, de fertilizantes e metais industriais a açúcar e gás hélio.

Embora o mercado de energia seja o mais imediatamente sensível a conflitos na região, analistas apontam que a interrupção de rotas marítimas e de centros industriais estratégicos pode provocar um choque mais amplo nas cadeias de suprimento globais.

O resultado tende a ser aumento de custos para empresas e, eventualmente, para consumidores.

significativa do comércio global de petróleo e de outras matérias-primas. Desde o início do conflito, o tráfego na região tem sido afetado por ameaças militares e riscos de segurança. A continuidade ou não dessas interrupções dependerá da duração da guerra.

Um cessar-fogo permitiria a reabertura gradual de portos, aeroportos e instalações industriais na região. O cenário, porém, permanece incerto.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem emitido sinais contraditórios sobre a possibilidade de reduzir a escalada, enquanto autoridades iranianas afirmam estar preparadas para manter ataques contra aliados de Washington e pressionar o tráfego marítimo no Golfo.

Enquanto isso, diversos mercados de commodities já registram turbulência. Um dos setores mais afetados é o do alumínio. O preço do metal atingiu o nível mais alto em quase quatro anos após interrupções em remessas provenientes de produtores do Golfo.

Fundições em países como Catar e Bahrein suspenderam entregas, o que levou compradores a buscar fornecedores alternativos na Ásia. A região tornou-se um polo importante da indústria de alumínio nas últimas décadas porque o processo de produção exige enorme consumo de energia.

O acesso abundante a petróleo e gás natural garantiu vantagem competitiva às fábricas locais. No entanto, as matérias-primas utilizadas na produção precisam ser importadas por navios que atravessam o Estreito de Ormuz, agora sujeito a restrições.

O impacto potencial é amplo. O alumínio está presente em aviões, redes elétricas, embalagens e diversos bens industriais e de consumo. Se os preços permanecerem elevados, os custos podem aparecer gradualmente em produtos do dia a dia.

A guerra também pode alterar o mercado de açúcar e combustíveis no Brasil, maior produtor mundial de cana-de-açúcar. A planta pode ser usada tanto para produzir açúcar quanto etanol, combustível amplamente utilizado em carros no país.

Quando os preços da energia sobem, como ocorre em períodos de alta do petróleo, o etanol tende a se tornar mais lucrativo. Desde o início do conflito, a cotação do combustível subiu cerca de 10% no mercado internacional.

Esse movimento pode levar usinas brasileiras a direcionar uma parcela maior da próxima safra para a produção de combustível, reduzindo a oferta global de açúcar. Outro setor crítico é o de fertilizantes. Cerca de um terço do comércio global de ureia, o principal fertilizante nitrogenado, normalmente passa pelo Estreito de Ormuz.

A substância é produzida em grande escala no Oriente Médio porque o gás natural é uma matéria-prima essencial para sua fabricação. Com o transporte afetado e algumas plantas interrompendo operações, o preço da ureia já disparou até 35% desde o início da guerra.

O enxofre também entrou na lista de produtos afetados. O material, um pó amarelo obtido durante o refino de petróleo e gás, é fundamental para a produção de fertilizantes e para diversos processos industriais, como a fabricação e o tratamento de metais.

Quase metade da oferta global encontra-se atualmente do lado do Golfo Pérsico no Estreito de Ormuz, o que cria risco de escassez caso o bloqueio persista. A consequência pode se espalhar por várias cadeias produtivas.

Países asiáticos utilizam grandes volumes de enxofre para fertilizantes e processamento de níquel, enquanto a agricultura africana depende fortemente de importações da região.

Até mesmo setores de alta tecnologia foram atingidos. A produção de hélio, gás essencial para equipamentos médicos, indústria de semicondutores e pesquisas científicas, foi afetada após um ataque iraniano atingir instalações industriais no Ras Laffan Industrial City, complexo energético localizado no Catar.

O país responde por cerca de um terço da oferta global de hélio, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Com as operações comprometidas e o transporte marítimo ameaçado, analistas estimam que mais de um quarto da oferta mundial do gás pode ficar indisponível se o bloqueio no Estreito de Ormuz se prolongar.

Para economistas, o risco mais amplo é que a combinação de choques em várias commodities simultaneamente reforce pressões inflacionárias ao redor do mundo. Custos mais altos de matérias-primas tendem a se espalhar pela economia, encarecendo desde alimentos até produtos industriais e eletrônicos.

Em outras palavras, embora o petróleo seja o símbolo clássico das crises no Oriente Médio, a guerra atual mostra que o impacto de conflitos na região pode atingir praticamente todas as engrenagens da economia global. Se o confronto se prolongar, os efeitos podem chegar rapidamente ao bolso de consumidores em vários países.

Fonte: Veja Abril